10 anos

Estímulos externos: brinquedos como influências culturais

Os brinquedos são uma das maneiras de comunicar estereótipos de gênero e, assim como a escola, as vestimentas, a televisão e a internet funcionam como uma influência cultural direta. Por se tratar de seres humanos em formação, rotular brinquedos e brincadeiras para “meninos” ou “meninas” podem perpetuar preconceitos até limitar opções de carreira profissional. Meninas não gostam de brincar de passar roupa por vocação, isso é uma marca cultural que foi sendo abocanhada cada vez mais pelo mercado para vender e dividir em nichos.

Brinquedos de tipos diferentes ajudam no desenvolvimento de capacidades específicas. Brinquedos de ação e construção treinam habilidades espaciais, resolução de problemas e encorajam crianças a serem ativas. Já brinquedos que focam no desempenho de papéis e em teatro de pequena escala permitem a prática de habilidades sociais. Meninas ganham bonecas, lousas, cozinhas de brinquedo, enquanto meninos ganham video games, carrinhos elétricos, blocos de montar. Esses brinquedos não são apenas entretenimento infantil, eles passam uma mensagem e dizem às crianças o que é esperado delas, além de incentivarem o desenvolvimento de habilidades específicas.

Meninas de 6 anos já não se acham inteligentes e desistem de atividades

Segmentar tipos de brinquedo ou brincadeira para meninas e meninos faz com que as crianças percam experiências de formação importantes. A verdade é que homens e mulheres são tão diversos que atrelar aptidões e habilidades à biologia acaba tendo uma função nociva: limitar as possibilidades de cada pessoa. Mulheres não são inferiores a homens em nenhuma função. As dificuldades que muitas garotas enfrentam com matemática, programação, engenharia são frutos da socialização.

 

A divisão da brincadeira na infância se traduz em desigualdade na vida adulta.

 

Segundo a matéria publicada em 1 de fevereiro de 2017, na edição digital do jornal Folha de São Paulo, a revista científica Science divulgou os resultados de uma série de experimentos com quatrocentas crianças entre os cinco e os sete anos, e de acordo os resultados, é a partir dessa idade que os estereótipos relacionados a gênero começam a se firmar.

Em um dos testes realizados, os pesquisadores contavam para as crianças uma história sobre alguém “muito, muito inteligente”. Um cuidado especial era não dar pistas ou indicações sobre o gênero de quem protagonizava o conto. Então, pediam para as crianças associarem a trama a um de quatro adultos (duas mulheres e dois homens) desconhecidos que eram apresentados a elas. Até os cinco anos, garotas e garotos associavam de modo semelhante o próprio gênero à inteligência. Contudo, a partir dos seis anos, as garotas se mostravam significativamente menos propensas a fazer tal associação.

Em seguida, foram apresentados às crianças jogos inventados. Um deles destinado a pessoas “muito, muito inteligentes” e o outro para os “muito, muito esforçados”. Meninas e meninos de cinco anos apresentaram interesse semelhante no jogo para quem é “brilhante”. Contudo, a partir dos seis anos, as meninas se mostravam menos interessadas no jogo para crianças “muito, muito inteligentes”. A matéria da Folha também apresenta outro estudo, de 2011, publicado na revista Child Development, que havia observado que garotas e garotos entre seis e dez anos associavam matemática a homens.

 

Quase 40% das meninas brasileiras de 6 a 14 anos discordam que são tão inteligentes quanto os meninos, segundo a ONG britânica Plan International, que entrevistou 1.948 garotas.

 

Estereótipos associam capacidade intelectual de alto nível (brilhante, gênio, etc.) a homens mais do que a mulheres. Esses estereótipos desencorajam mulheres a seguirem carreiras de prestígio por parte das mulheres; isso faz com que as mulheres estejam sub-representadas em campos associados à genialidade (como física e filosofia). Especificamente, as meninas de 6 anos têm menos probabilidade do que os meninos de acreditar que os membros de seu gênero são “realmente muito inteligentes”. Essas descobertas sugerem que noções de brilho de gênero são adquiridas precocemente e têm um efeito imediato nos interesses das crianças.

As diferenças na exposição que meninos e meninas tem à tecnologia durante a infância, a prevalência de determinados modelos de homens e de mulheres e a extrema segregação de gênero no mercado de trabalho contribuem para a construção de uma noção de que homens são mais tecnicamente competentes que mulheres. As conclusões do relatório Situação da População Mundial – Mundos Distantes 2017 (UNFPA, 2017, p. 50) demonstram que a pressão e a discriminação por parte dos professores, ainda que aconteça de forma implícita, pode levar as meninas a desistir ou serem excluídas dos cursos de ciências e matemática, limitando suas possibilidades de escolhas profissionais (BASSI et al., 2016).

Referências bibliográficas

BASSI, M.; BLUMBERG, R. L.; DIAZ, M. M. Under the “Cloak of Invisibility”: Gender Bias in Teaching Practices and Learning Outcomes. Washington, D.C.: Banco Interamericano de Desenvolvimento, 2016. <https://publications.iadb.org/bitstream/handle/11319/7656/Under-the-Cloak-of-Invisibility-Gender-Bias-in-Teaching-Practices-and-Learning-Outcomes.pdf?sequence=1>

SILVA, E. B. Des-construindo gênero em Ciência e Tecnologia. Cadernos Pagu, 1998. Disponível em: <https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/2134>. Acesso em: 06 dez. 2018.

UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas) (2017). Situação da População Mundial 2017: Mundos Distantes. Relatório. Nova York. Disponível em: <https://angola.unfpa.org/sites/default/files/pub-pdf/swop2017.pdf>. Acesso em: 06 dez. 2018.

WATANABE, P. Meninas de 6 anos já não se acham inteligentes e desistem de atividades. Folha de São Paulo, São Paulo,
Equilíbrio e Saúde, 1 fev. 2017. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2017/02/1854691-meninas-de-6-anos-ja-nao-se-acham-inteligentes-e-desistem-de-atividades.shtml>. Acesso em: 06 dez. 2018.

As Cientistas – 50 mulheres que mudaram o mundo, escrito e ilustrado por Rachel Ignotofsky

“Entre as perfiladas, estão figuras bem conhecidas, como a primatologista Jane Goodall e a química Marie Curie, e outras nem tanto, como Katherine Johnson, física e matemática afro-americana que calculou a trajetória da missão Apolo 11 de 1969 à lua.”

Alfabantu é um aplicativo voltado para o público infantil e que tem como proposta ajudar no processo de alfabetização das crianças através de jogos digitais além de enfatizar uma das contribuições africanas no falar brasileiro.
É composto por um glossário formado por diversas palavras, o alfabeto kimbundu, números, saudações, partes do corpo, nomes de animais e ainda um quiz pensado como estratégia de memorização das palavras.”

Por que evitar clichês de gênero na educação das crianças desde cedo

No Brasil, campanha de marca de sabão ataca estereótipos e é alvo de conservadores

Publicado na editoria Ciência da versão digital brasileira do jornal EL PAÍS, em 11 de outubro de 2017, por Carolina García.

Sésamo: Aspirações “Somos Meninas”

Publicado em 11 de outubro de 2016
“Aspirações de ser o que quiserem é o que a música “Somos Meninas” traduz em letra. Acreditamos que é muito importante transmitir a meninas essa mensagem, para que no futuro sejam as mulheres que sempre quiseram ser quando crianças.”

 

Curta Metragem “Dúdú e o Lápis Cor da Pele”

Produtora de Filmes Take a Take
Publicado em 12 de outubro de 2018
“Dudu é um garoto negro, inteligente e imaginativo, estudante de um colégio particular da classe média de São Paulo. Durante uma aula de educação artística, sua professora, Sônia, diz a ele que utilize o que ela chama de “lápis cor da pele” para pintar um desenho. A frase desperta em Dudu uma crise de identidade. Com toda a inocência de uma criança da sua idade, Dudu passa a carregar o lápis em questão consigo para encontrar alguém que possa sanar seus questionamentos. Sua mãe, Marta, logo percebe e resolve ir até a escola da criança tomar satisfações sobre o ocorrido. A professora justifica-se dizendo que falou de forma automática, sem pensar. No meio da discussão, Dudu foge, levando consigo seu “lápis cor da pele”. Sua mãe e sua professora passam a procurá-lo desesperadamente. Passa por diversos lugares da cidade até encontrar Madalena, uma antropóloga e curadora de arte. Madalena e Dudu criam uma empatia imediata e mútua e ela, através do seu conhecimento, mostra ao garoto o quanto a raça e a cultura negra são importantes. Madalena conta a Dudu que seu nome (Dúdú) em lorubá significa negro. Dudu identifica-se com as coisas que Madalena diz a ele e desenvolve um sentimento de orgulho por sua raça. Ele resolve que a partir daquele dia não quer que o chamem por seu nome – Eduardo – e sim por Dúdú.”

Conteúdos multimídia desta seção

DúDú e o Lápis Cor da Pele. Direção de Miguel Rodrigues. Produção de Leandra Aiedo da Silva. [s.i.]: Cinema na Veia Produções – Take A Take Films, 2018. (19 min.), son., color. Disponível em: <https://youtu.be/-VGpB_8b77U>. Acesso em: 13 dez. 2018.

MARCHETTI, Giovana. Por que menino não pode brincar de boneca?: Carrinho para eles e boneca para elas? Nada disso.. Superinteressante: Comportamento, [s. L.], p.1-2, 20 dez. 2017. Disponível em: <https://super.abril.com.br/comportamento/por-que-menino-nao-pode-brincar-de-boneca/>. Acesso em: 13 dez. 2018.

OMOBRASIL. Comunicado Urgente Para Pais E Mães. 2017. (1:15) Disponível em: <https://youtu.be/CKqCidMktkY>. Acesso em: 13 dez. 2018

VILA SÉSAMO. SÉSAMO: Aspirações “Somos Meninas”. 2016. (2:48) Disponível em: <https://youtu.be/8GK-Sm_NWrY>. Acesso em: 13 dez. 2018