5 anos

Mamãe,

Hoje a Jéssica chorou bastante e não quis lanchar nem brincar com os coleguinhas.

Beijos,

Tia Cris

Marcadores sociais da diferença: gênero e raça

Segundo Ellen de Lima Souza, mestre e doutoranda do Programa de Pós-graduação em Educação da UFSCar, a escola normalmente é um ambiente inóspito para as crianças negras. A pesquisadora constatou que desde bebês as crianças negras são mais punidas do que as crianças brancas, recebem apelidos depreciativos e, nas situações de conflito, são as preteridas ou as culpadas.

 

Formação cognitiva e transmissão de estereótipos de gênero

Ao saber do sexo do bebê, a sociedade já cria expectativas de como será o desenvolvimento da criança, baseado em estereótipos de gênero associados ao sexo. Apesar de não sabermos nada a respeito da personalidade daquele bebê, se ele for do sexo masculino, ele inevitavelmente terá uma preferência por azul em detrimento do rosa.

A transmissão dessas distinções sociais e dos estereótipos de gênero se inicia tão logo os bebês nascem. Os pais e a família, que são o primeiro grupo de socialização, vão comunicar suas expectativas e valores através das perguntas, das roupas, dos presentes, dos brinquedos e das brincadeiras apresentadas às crianças pequenas. Já no primeiro ano, quando os bebês são praticamente indistinguíveis, há um esforço dos pais em comunicar para a sociedade o gênero da criança.

 

A importância em compreender essa relação com gênero na primeira infância

Lawrence Kohlberg (1966), psicólogo estadunidense da Universidade de Chicago, considerou em seus estudos que as crianças de 1 a 3 anos apresentam gênero fluido. A partir dessa idade, as crianças passam a ter uma noção rudimentar da identidade de gênero, classificando-se em menino ou menina. Isso faz com que crianças menores acreditem rigidamente e endossem estereótipos de gênero, inclusive demonstrando um grande envolvimento com brinquedos estereotipados por gênero, evitando cada vez mais os brinquedos estereotipados do gênero oposto, ou vestindo-se com mais ênfase de forma estereotipada conforme seu gênero.

Quando completam 6 ou 7 anos, as crianças começam a mostrar flexibilidade e aprendem sobre a constância do gênero, isto é, de que o gênero permanece o mesmo ao longo do tempo (menino vira homem, menina continua menina mesmo brincando de carrinho). Após adquirir identidades básicas de gênero, as crianças intensificam sua atenção às informações relacionadas ao gênero, se preocupam com os modelos do mesmo gênero e, ao mesmo tempo, elas exibem uma memória melhor para aquilo que julgam ser relevante para seu próprio gênero.

 

Influência da raça e impacto na autoestima

Em seu livro Do silêncio do lar ao silêncio escolar, Eliane Cavalleiro (2012) observa que “no que tange ao espaço escolar, as crianças estão tendo infinitas possibilidades para a interiorização de comportamentos e atitudes preconceituosas e discriminatórias contra os negros”.

A pesquisa de Marília Pinto de Carvalho, professora da Faculdade de Educação da USP, demonstra ainda que há grupos, especialmente entre a população mais pobre, onde ir mal na escola é visto como sinal de “virilidade”. Segundo essa visão, homem que é homem não gosta de estudar. “Hoje, os meninos, principalmente negros e moradores das periferias das grandes cidades, formam o maior contingente de estudantes que desistem dos estudos… de modo geral a escola é pensada como um espaço privilegiado para o que se entende por feminilidade”, diz a professora no livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola, dos antropólogos Beatriz Accioly Lins, Bernardo Fonseca Machado e Michele Escoura (2016).

 

Perspectivas

O antropólogo Rafael Evangelista (2018) recorre à proposta “Faça Parentes, Não Bebês!”, de Donna Haraway (2016), para advertir que os bebês da cultura hacker trazem os mesmos vícios de origem dessa cultura: o alheamento elitista frente ao mundo, a competição egóica dentro do grupo, por outro lado, o parentesco se refere à construção de novas lógicas e de afinidades capazes de produzir novas combinações para o futuro.

 

Referências bibliográficas desta seção

CAVALLEIRO, E. S. Do silêncio do lar ao silêncio escolar: racismo, preconceito e discriminação na educação infantil. 6. ed. São Paulo: Contexto, 2012

EVANGELISTA, Rafael. Para além das máquinas de adorável graça: cultura hacker, cibernética e democracia. Coleção Democracia Digital. Org. Sérgio Amadeu da Silveira. Edições Sesc. São Paulo, 2018.

HARAWAY, D. Antropoceno, Capitaloceno, Plantationoceno, Chthuluceno: fazendo parentes. ClimaCom, ano 3, n. 5, “Vulnerabilidade”, 2016. Disponível em: <climacom.mudancasclimaticas.net.br/?p=5258>.

KOHLBERG, L. A cognitive-developmental analysis of children’s sex- role concepts and attitudes. In: Maccoby EE, ed. The Development of Sex Differences. Stanford, CA: Stanford University Press; 1966.

LINS, B. A.; MACHADO, B. F.; ESCOURA, M. Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola. São Paulo: Editora Reviravolta.

SOUZA, E. L. Percepções de infância negra, por professoras de educação infantil: Dissertação. Universidade Federal de São Carlos, 2012.

 

A Solidão da Criança Negra

Eparrei Filmes
Publicado em 11 de julho de 2018

Viva Erê – Sobre Cor, Diversidade e Igualdade Racial na Infância é uma websérie composta por cinco vídeos que traz entrevistas de especialistas e ativistas do movimento negro sobre metodologias de combate ao racismo na infância. Neste quarto episódio, “A Solidão da Criança Negra”, é abordado o tema auto-estima. De que forma os pais podem trabalhar esse assunto com as crianças e mostrar que carinho e afeto podem ser ótimas ferramentas para o combate ao racismo.”

 

#DesafioDaIgualdade: O que você pode fazer pela igualdade de gênero na infância?

PlanBrasilTV
Publicado em 16 de novembro de 2016
“Em pleno século 21, ainda tratamos meninos e meninas de modo desigual. Precisamos mudar essa realidade juntos, questionando nossos hábitos, mudando nossos comportamentos e educando nossas crianças para a igualdade. Em casa, na escola, entre amigos, em todo lugar. Todos têm um papel importante. Por isso, lançamos o desafio: O que você pode fazer pela igualdade de gênero na infância?”

Programa Racismo na Infância no canal de Youtube Papo de Preta, publicado em 9 de agosto de 2017, com discussão voltada para a pesquisa de Ellen de Lima Souza, mencionada acima.

Por que menino não pode brincar de boneca?
Carrinho para eles e boneca para elas? Nada disso.
Publicado em 20 de dezembro de 2017 por Giovana Marchetti
Disponível em: https://super.abril.com.br/comportamento/por-que-menino-nao-pode-brincar-de-boneca/

“Produzido pelo coletivo Dúdú Badé, o catálogo resgata perspectivas compartilhadas a partir das duas edições do Seminário Omo Erê (2016-2017), realizado pelo Coletivo, que reuniu diversos especialistas para debater temas como literatura infantil, oralidade, musicalidade, o brincar e a educação na perspectiva das crianças e de suas infâncias com enfoque étnico-racial.”

Campaña Eduquemos Con Igualdad

Ministerio de Educación Gobierno de Chile
Publicado em 11 de março de 2016
“El Ministerio de Educación en conjunto con Comunidad Mujer, lanzan la campaña Eduquemos Con Igualdad, que busca visibilizar estas brechas, cuestionar los roles tradicionales de género y construir nuevas narrativas que contribuyan a proyectos de vida igualitarios entre niñas y niños, que anulen las diferencias en el desempeño escolar, les permitan tomar decisiones vocacionales en libertad y desarrollar sus talentos sin limitarse por los estereotipos de género.”

O Ministério de Educação em conjunto com a Comunidade Mulher, lançam a campanha Eduquemos Com Igualdade, que busca visibilizar estas lacunas, desafiar os papéis tradicionais de gênero e construir novas narrativas que contribuam para projetos de vida igualitários para meninas e meninos, que anulem as diferenças no desempenho escolar, lhes permitam tomar decisões vocacionais em liberdade e desenvolver seus talentos sem se limitar a estereótipos de gênero.

Conteúdos multimídia desta seção

DÚDÚ BADÉ. Catálogo Seminário Omo Erê. 2018. Disponível em: <http://dudubade.com.br/catalogo/>. Acesso em: 13 dez. 2018.

MINISTERIO DE EDUCACIÓN GOBIERNO DE CHILE. Campaña Eduquemos Con Igualdad. 2016. (2:02) Disponível em: <https://youtu.be/NwbZ8ZW9lkM>. Acesso em: 13 dez. 2018.

PAPO DE PRETA. Racismo na Infância. 2017. (8:26) Disponível em: <https://youtu.be/QurhcFFhiOU>. Acesso em: 13 dez. 2018.

PLANBRASILTV. #DesafioDaIgualdade: O que você pode fazer pela igualdade de gênero na infância?. 2016. (1:01) Disponível em: <https://youtu.be/R2YTnJUGPkc>. Acesso em: 13 dez. 2018.

VIVA ERÊ [A SOLIDÃO DA CRIANÇA NEGRA]. Direção de João Paulo Machado. Produção de Elen Linth , Riane Nascimento, Sarah Pimentel. Realização de Rumus Itaú Cultura. Coordenação de Elen Linth. [s.i.]: Eparrêi Filmes, 2018. webdocumentário, son., color. Série Viva Erê – Sobre Cor, Diversidade e Igualdade Racial na Infância. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=TVBh9xeS4yk>. Acesso em: 13 dez. 2018.