20 anos

Autoimagem e projeção profissional

A adolescência e começo da vida adulta é a fase em que meninas estão começando a contemplar possibilidades de carreira, cursos universitários, etc. Professores, colegas de classe, familiares têm uma enorme influência nesse processo. A falta de exemplos e de incentivo, acabam, por fim, de apartar as meninas que haviam superado os obstáculos anteriores, de modo a compor o quadro atual de invisibilidade de mulheres na tecnologia.

A expectativa da família também influencia. Ciências, tecnologia e laboratórios exigem experimentação e “sujeira” e não combinam com a ideia da menina “princesinha”, que muitas famílias projetam sobre as crianças e adolescentes. Como resultado, falta autoestima intelectual e sobra autocensura na hora de escolher profissões.

Graças à falta de estímulo para o envolvimento com a tecnologia de forma ativa, as meninas são introduzidas a esse contexto como meras receptoras, por meio do uso de telefones celulares e aplicativos que carregam em seus algoritmos os prejuízos de gênero intrínsecos na sociedade, o que pode gerar impactos negativos também em relação à própria imagem.

Em janeiro de 2018, os jornalistas Renata Cafardo e Luiz Fernando Toledo analisaram os dados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizado no Brasil em 2016, e representaram as informações em um infográfico publicado no jornal O Estado de São Paulo. Os 4,85 milhões de estudantes que realizaram o exame foram representados como se fossem um grupo de mil pessoas.

Na divisão por gênero, as mulheres foram maioria entre os candidatos, 575 mulheres e 425 homens. Já na distribuição entre brancos e negros (pretos ou pardos), a soma total de pessoas negras corresponde a 60% dos participantes do ENEM: as mulheres negras representam a maioria, 346 mulheres negras, enquanto as mulheres brancas somam 202, os homens negros, 252, e os homens brancos em menor parcela, 153.

Porém, ao considerar as mil melhores notas obtidas no exame, os homens passam a representar a maioria, com 64,6%, sendo 489 homens brancos, 157 homens negros, 180 mulheres brancas e apenas 64 mulheres negras, que correspondem a menos de 1% das pessoas com as melhores notas.

Para a análise foram excluídos os treineiros e os que tiveram nota zero em alguma área. Os jornalistas checaram também os mil melhores dos dois anos anteriores do Enem e o padrão se repete. A idade dos participantes do exame varia entre 17 e 19 anos, a maioria dos que tiveram as melhores notas estudou em escolas particulares e possui renda familiar acima de R$ 10 mil. Todos estes tiraram nota maior que 781,68, em uma escala que vai de 0 a 1.000.

O resultado das análises aponta que em Matemática, a nota de meninos brancos é 52 pontos maior que a de meninas brancas. Com relação às garotas negras, são 81 pontos de diferença. Os estudantes negros também apresentaram desempenho melhor em Matemática e em Ciências da Natureza do que as estudantes brancas e as negras.

Ao jornal O Estado de São Paulo, o professor titular de neurociência da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Roberto Lent afirma que “A explicação não deve ser buscada na Biologia, embora cérebros de homens e mulheres não sejam iguais. Mas isso não afeta a cognição, em áreas do raciocínio lógico, muito menos na inteligência”. Segundo Lent, o que mais influencia o desempenho dos jovens no exame são as posições da família e os estereótipos da sociedade.

“As meninas negras acumulam duas dificuldades: são meninas e são negras”, explica a presidente do Movimento Todos pela Educação, Priscila Cruz. Segundo ela, as meninas negras representam o grupo sobre o qual as escolas têm menor expectativa de sucesso, o que influencia na motivação das garotas para estudar.

Se a tecnologia é moldada pelo modelo de sociedade em que vivemos, é possível remoldá-la para ser mais inclusiva e plural, e isso pode gerar uma tecnologia melhor. Uma educação que propõe repensar os “moldes” nos quais as garotas são encaixadas desde cedo, que tem recursos para oferecer atividades mais diversas, pode ampliar as oportunidades para que garotas se envolvam com tecnologia.

Referências bibliográficas

CAFARDO, R. e TOLEDO, L. F. Homens têm 72% das mil melhores notas do Enem. Estado de S.Paulo, São Paulo, 14 de janeiro de 2018. Infográficos. Disponível em: https://infograficos.estadao.com.br/educacao/enem/desigualdades-de-genero-e-raca/. Acesso em: 10 de dezembro de 2018.

NUNES, J. C. Discurso de ódio na internet tem mulheres negras como principal alvo. Agencia Brasil, Brasília, Disponível em <http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2018-08/discurso-de-odio-na-internet-tem-mulheres-negras-como-principal?fbclid=IwAR2tYakL-fTgsm2FJWZOW7W9TkGpKSTRIUs5GQaFtLSF5UB5tSPF7C10MFY>, 07 ago. 2018 Acesso em: 14 dez.2018

SANTOS, C. M. Por que as mulheres “desapareceram” dos cursos de computação?. Jornal da USP: Universidades, São Paulo, Disponível em <jornal.usp.br/?p=136701>, 07 mar. 2018 Acesso em: 14 dez.2018

 

Elas Nas Exatas: um manifesto

Publicado em 22 de março de 2018

por Instituto Unibanco

Já parou para pensar por que há tão poucas meninas nas ciências?

Segundo relatório da UNESCO (2016), as adolescentes não buscam as ciências e os estudos técnicos na mesma proporção que os adolescentes. E são diversos os motivos por trás disso: desigualdade de gênero, educação sexista, estereótipos de gênero no ambiente escolar, entre muitos outros.

A aposta da parceria entre ELAS Fundo de Investimento Social, Fundação Carlos Chagas, Instituto Unibanco e ONU Mulheres para causar impacto nesse contexto é incentivar projetos que estimulem meninas de escolas públicas de Ensino Médio a se envolverem com as ciências exatas e tecnológicas, sensibilizando a gestão escolar para transformar o cenário de desigualdade de gênero existente no Brasil.

When Women Stopped Coding
Planet Money

#MinasProgramam entrevista: tecnologia e militância feminista
Publicado em 28 de abril de 2017
Por Minas Programam
Em novembro de 2016 estivemos com feministas latino-americanas no acampamento do FRIDA Young Feminist Fund, na Cidade do México. Durante o encontro, perguntamos como cada uma usava a tecnologia na sua vida e na luta feminista. Dá uma olhada no vídeo para descobrir as respostas 😉

Teaser Pretalab
Iniciativa realizada pelo Olabi para inspirar meninas e mulheres negras e indígenas no universo das tecnologias e inovação.
www.pretalab.com

Conteúdos multimídia desta seção

HENN, Steve. When Women Stopped Coding. National Public Radio, 21 out.2014. Planet Money. (4:33). Disponível em: <https://www.npr.org/sections/money/2014/10/21/357629765/when-women-stopped-coding>. Acesso em: 14 dez.2018

INSTITUTO UNIBANCO. Elas Nas Exatas: um manifesto. 2018. (3:41) Disponível em: <https://youtu.be/N1zKswyQId8>. Acesso em: 13 dez. 2018

MINAS PROGRAMAM. Minas Programam entrevista: tecnologia e militância feminista. 2017. (8:13) Disponível em: <https://youtu.be/JZ8wioWvA4Q>. Acesso em: 13 dez. 2018

OLABI MAKERSPACE. Teaser Pretalab. 2017. (1:24) Disponível em: <https://youtu.be/ug_ow0vLc8M>. Acesso em: 13 dez. 2018